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| Ricardo Pedroso fotografado por Jonny Ueda durante a visita à II Mostra de Inclusão Visual - imaginaSOM |
Como dar acesso ao conteúdo jornalístico da fotografia de imprensa à pessoa com deficiência visual
por Tina Andrade*
A informação é um direito constituído e seu acesso, uma condição para uma vida digna. Se a significação depende de juízo interpretativo (COELHO NETTO, 2003), a finalidade máxima da informação é reduzir a dúvida e [...] quanto maior for esta capacidade de redução, de eliminação da dúvida, melhor é a qualidade da mensagem que ela transporta.
Por dedução, ao privarmos uma pessoa com deficiência desse direito à medida que não lhe conferimos acesso, aumentamos a sua condição social de prejuízo, colocando-a cada vez mais em desvantagem.
Lígia Assumpção Amaral esclarece que essa desvantagem diz respeito aos prejuízos que o indivíduo experimenta por conta da deficiência e incapacidade; e que se reflete na interação com o seu meio. Para ela, que defende ardorosamente (em suas palavras) a ideia de que as deficiências não são apenas uma construção social, só se está em desvantagem em relação a algo ou alguém. Por isto podemos (e devemos!) revolucionar conceitual e politicamente a mentalidade hegemônica:
... penso que a reflexão sistemática sobre a questão conceitual é de extrema importância para a simultânea/subsequente reflexão sistemática sobre o cotidiano das pessoas com deficiência... (AMARAL, 1998 p. 27).
A "cegueira branca" tem cura!
Em seu Ensaio sobre a Cegueira (1995), José Saramago faz uma pergunta que nos pôs a refletir: " e se fôssemos todos cegos?". Devemos concordar que nós somos realmente acometidos da cegueira da razão, da sensibilidade e de tudo aquilo que faz de nós não um ser funcional no sentido da relação humana, pelo contrário, rudes, egoístas e violentos em um mundo de desigualdade e de sofrimento, que se explica, mas que, na sua opinião, não se justifica.
Para uma melhor compreensão da cegueira, selecionamos dois conceitos básicos: o primeiro é científico e a coloca como sendo "a condição de falta de percepção visual, devido a fatores fisiológicos ou neurológicos" (Conselho Internacional de Oftalmologia, 2002); já o segundo, é filosófico – vem de Espinosa – e contradiz o primeiro tratando a cegueira, não como ausência de visão, mas como uma forma diferente de existir.
Deficiência não é doença. "A doença é um processo com um início, um tratamento e um fim; já a deficiência é uma condição constitutiva do sujeito [...] a conduta social com a pessoa com deficiência a leva ao isolamento, podendo aí surgir doenças decorrentes deste isolamento" (LIMA, 2010 p. 111).
A Imprensa, o direito de informar e o de ser informado
A primeira função da Imprensa é a informação. E informação, enquanto conceito está imbuído das noções de comunicação, restrição e controle, dados, forma, instrução, significado, estímulo, padrão, percepção e representação de conhecimento, entre outras (COELHO NETTO, 2003).
Os avanços tecnológicos que deveriam romper as barreiras impostas ao livre fluxo das ideias, elevam o nível de sofisticação que, pelo contrário, abre um vale de desinformação.
Ainda hoje, 5 mil anos depois da escrita suméria, 500 depois da Era Gutenberg, por conseguinte, do livro, quase meio-século de Internet e pelo menos 20 anos de vida "pontocom" - verificamos se os sistemas linguísticos, de fato, estão atendendo as muitas urgências sociais, entre elas, a garantia do acesso à informação.
Já passamos do prazo para compreender e rever os princípios que regem as comunicações, de modo a atribuir à Imprensa, não apenas a função primeira de informar, mas a responsabilidade de disponibilizar seus produtos de informação, respeitando o princípio isonômico que garante o tratamento igualitário e sem discriminações.
Não precisamos de muito para ilustrar o que contraria este princípio: basta lembrar que nos dias atuais, a despeito de todo o apoio tecnológico, milhões de potenciais consumidores da informação com deficiência visual espalhados pelo mundo não têm atendidas a pulsão escópica, a necessidade de ver, o desejo de olhar, à medida que estão invisíveis aos olhos dos mediadores da informação.
O direito de informar e receber informação constitui o fermento da cidadania, o oxigênio que nutre a vida democrática [...] a Imprensa instaurou a cidadania e criou condições indispensáveis para a emergência das sociedades democráticas (MARQUES DE MELO, 2009 p. 57).
Os jornalistas somos, em verdade, profissionais híbridos: misto de investigadores, formadores de opinião, informatas, educadores; que conectados ao mundo, nos fazemos ubíquos. A consciência do que isto representa, somada ao bom uso das novas mídias – é que nos coloca no topo entre os trabalhadores do conhecimento.
O objetivo principal da II Mostra de Inclusão Visual - imaginaSOM é buscar caminhos para tornar a informação contida na fotografia jornalística acessível ao deficiente visual severo. E a repercussão que este trabalho está tendo, a atenção que vem merecendo da imprensa (acesse o e-Clipping) denota o quanto a proposta é bem-recebida e, também, o quanto a sociedade criativa está disposta a contribuir.
(*) Texto construído a partir de trechos de sua obra Fotografia inclusiva: tradução intersemiótica e dimensão expressiva para "imprensa acessível". 109f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Mestrado em Semiótica, Tecnologias da Informação e Educação, Universidade Braz Cubas, Mogi das Cruzes, SP, 2012.
![II Mostra de Inclusão Visual - imaginaSOM [DESCRIÇÃO DA IMAGEM] À extrema-direita e em plano médio, a fotografia mostra um homem usando rédfônes; ele segura com uma das mãos uma bengala e com a outra, tateia uma figura afixada sobre uma parede na qual vê-se em perspectiva a imagem de quadros com fotografias emolduradas lado a lado. [FIM DA DESCRIÇÃO]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh2ainGyQC518BDg8XOzht_psBT_-FgkZK0G3eJQZ0K75m3b6aV0-8Z-M8-h0benxxL9_5EnQk1KKjnUKlktTXhFDAGPQTjw4ACzTZM4TfPiGHak1ixlmU5ca0exbwxSKVskQataj09jA/s320/II+Mostra+de+Inclus%C3%A3o+Visual+-+imaginaSOM-ricardo+pedroso-deficiente+visual-foto+de+jonny+ueda+1024PX.jpg)



![Jonny Ueda em seu DIAPOSITIVO {DESCRIÇÃO DA IMAGEM] Fotografia colorida feita no Pico do Urubu, na Serra do Itapeti, região do Alto Tietê. Nela aparecem as mãos de um homem segurando uma câmera fotográfica profissional, de modo que apenas a parte de trás do equipamento deixa à mostra a tela da câmera, refletindo o rosto de traços orientais do fotógrafo Jonny Ueda, sorrindo. A sensação ótica é de uma máquina que sorri, pois aquele rosto refletido fica completamente integrado ao equipamento. Ao redor desta imagem, aparecem parcialmente uma biruta, algumas pessoas sentadas sobre pedras e até a lona azul de um parapente, indícios de que é um lugar de saltos. Esta foto é uma homenagem da autora, Tina Andrade pelo 19 de agosto, Dia Mundial da Fotografia.](https://fbcdn-sphotos-h-a.akamaihd.net/hphotos-ak-snc6/284908_4165201685100_1665837887_n.jpg)






