sábado, 1 de setembro de 2012

FOTOGRAFIA INCLUSIVA




‎[DESCRIÇÃO DA IMAGEM] À extrema-direita e em plano médio, a fotografia mostra um homem usando rédfônes; ele segura com uma das mãos uma bengala e com a outra, tateia uma figura afixada sobre uma parede na qual vê-se em perspectiva a imagem de quadros com fotografias emolduradas lado a lado. [FIM DA DESCRIÇÃO]
Ricardo Pedroso fotografado por Jonny Ueda
durante a visita à II Mostra de Inclusão Visual - imaginaSOM

Como dar acesso ao conteúdo jornalístico da fotografia de imprensa à pessoa com deficiência visual


por Tina Andrade*

A informação é um direito constituído e seu acesso, uma condição para uma vida digna.  Se a significação depende de juízo interpretativo (COELHO NETTO, 2003), a finalidade máxima da informação é reduzir a dúvida e [...] quanto maior for esta capacidade de redução, de eliminação da dúvida, melhor é a qualidade da mensagem que ela transporta.

Por dedução, ao privarmos uma pessoa com deficiência desse direito à medida que não lhe conferimos acesso, aumentamos a sua condição social de prejuízo, colocando-a cada vez mais em desvantagem.

Lígia Assumpção Amaral esclarece que essa desvantagem diz respeito aos prejuízos que o indivíduo experimenta por conta da deficiência e incapacidade; e que se reflete na interação com o seu meio. Para ela, que defende ardorosamente (em suas palavras) a ideia de que as deficiências não são apenas uma construção social, só se está em desvantagem em relação a algo ou alguém. Por isto podemos (e devemos!) revolucionar conceitual e politicamente a mentalidade hegemônica:

... penso que a reflexão sistemática sobre a questão conceitual é de extrema importância para a simultânea/subsequente reflexão sistemática sobre o cotidiano das pessoas com deficiência... (AMARAL, 1998 p. 27). 


A "cegueira branca" tem cura! 

Em seu Ensaio sobre a Cegueira (1995), José Saramago faz uma pergunta que nos pôs a refletir: " e se fôssemos todos cegos?".  Devemos concordar que nós somos realmente acometidos da cegueira da razão, da sensibilidade e de tudo aquilo que faz de nós não um ser funcional no sentido da relação humana, pelo contrário, rudes, egoístas e violentos em um  mundo de desigualdade e de sofrimento, que se explica, mas que, na sua opinião, não se justifica.

Para uma melhor compreensão da cegueira, selecionamos dois conceitos básicos: o primeiro é científico e a coloca como sendo "a condição de falta de percepção visual, devido a fatores fisiológicos ou neurológicos" (Conselho Internacional de Oftalmologia, 2002); já o segundo,  é filosófico – vem de Espinosa – e contradiz o primeiro tratando a cegueira, não como ausência de visão, mas como uma forma diferente de existir.

Deficiência não é doença. "A doença é  um processo com um início, um tratamento e um fim; já a deficiência é uma condição constitutiva do sujeito [...] a conduta social com a pessoa com deficiência a leva ao isolamento, podendo aí surgir doenças decorrentes deste isolamento" (LIMA, 2010 p. 111).

Elias Nunes fotografado por Tina Andrade
em sua visita à imaginaSOM

A Imprensa, o direito de informar e o de ser informado

A primeira função da Imprensa é a informação. E informação, enquanto conceito está imbuído das noções de comunicação, restrição e controle, dados, forma, instrução, significado, estímulo, padrão, percepção e representação de conhecimento, entre outras (COELHO NETTO, 2003).

Os avanços tecnológicos que deveriam romper as barreiras impostas ao livre fluxo das ideias, elevam o nível de sofisticação que, pelo contrário, abre um vale de desinformação.

Ainda hoje, 5 mil anos depois da escrita suméria, 500 depois da Era Gutenberg, por conseguinte, do livro, quase meio-século de Internet e pelo menos 20 anos de vida "pontocom" - verificamos se os sistemas linguísticos, de fato, estão atendendo as muitas urgências sociais, entre elas, a garantia do acesso à informação.

Já passamos do prazo para compreender e rever os princípios que regem as comunicações, de modo a atribuir à Imprensa, não apenas a função primeira de informar, mas a responsabilidade de disponibilizar seus produtos de informação, respeitando o princípio isonômico que garante o tratamento igualitário e sem discriminações.

Não precisamos de muito para ilustrar o que contraria este princípio: basta lembrar que nos dias atuais, a despeito de todo o apoio tecnológico, milhões de potenciais consumidores da informação com deficiência visual espalhados pelo mundo não têm atendidas a pulsão escópica, a necessidade de ver, o desejo de olhar, à medida que estão invisíveis aos olhos dos mediadores da informação.

O direito de informar e receber informação constitui o fermento da cidadania, o oxigênio que nutre a vida democrática [...] a Imprensa instaurou a cidadania e criou condições indispensáveis para a emergência das sociedades democráticas (MARQUES DE MELO, 2009 p. 57).

A "cegueira branca" (SARAMAGO, 2006) é a alegoria perfeita para conotar o momento que exige da Imprensa "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam".

Os jornalistas somos, em verdade, profissionais híbridos: misto de investigadores, formadores de opinião, informatas, educadores; que conectados ao mundo, nos fazemos ubíquos. A consciência do que isto representa, somada ao bom uso das novas mídias – é que nos coloca no topo entre os trabalhadores do conhecimento.

O objetivo principal da II Mostra de Inclusão Visual - imaginaSOM é buscar caminhos para tornar a informação contida na fotografia jornalística acessível ao deficiente visual severo. E a repercussão que este trabalho está tendo, a atenção que vem merecendo da imprensa (acesse o e-Clipping) denota o quanto a proposta é bem-recebida e, também, o quanto a sociedade criativa está disposta a contribuir.

(*) Texto construído a partir de trechos de sua obra Fotografia inclusiva: tradução intersemiótica e dimensão expressiva para "imprensa acessível". 109f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Mestrado em Semiótica, Tecnologias da Informação e Educação, Universidade Braz Cubas, Mogi das Cruzes, SP, 2012.