sábado, 6 de novembro de 2010

A linguagem do ensaio


"Comecei a fazer sequências porque aquilo sobre o que queria falar eu não podia encontrar na rua; tinha que ser construído. Para mim a realidade não é o acontecimento na rua; é toda minha experiência. Não é apenas o que eu vejo, mas o que sinto. Eu prefiro fotografar sentimentos. Mais que fotografar uma mulher chorando, quero fotografar a razão pela qual ela está chorando. Prefiro fotografar a dor. Mais que fotografar um homem dormindo num divã, eu prefiro fotografar os sonhos dele. Estou mais interessado na natureza das coisas que em sua aparência."

Este relato é de Duane Michaels, e exprime com muita propriedade a essência de um ensaio fotográfico e sua linguagem. Ninguém chega ao mundo da fotografia sabendo realizar um ensaio. Intuitivamente é possível, mas o maior aprendizado está na observação.

Quando achei que havia feito meu primeiro ensaio, reuní algumas imagens que havia feito sobre um clássico da arte de rua, o Just Writing My Name
e levei para a turma do Luminous, onde tive a felicidade de ter o material analisado pelos colegas fotoclubistas sob a batuta do Milton Galvani.

Foi aí que eu vi que (na verdade) o que eu tinha gerado não passava de uma sequência de imagens fotojornalísticas.
Mas o bom é que eu tinha material suficiente para transformar em um belo ensaio! E assim o fiz. Cartier Bresson diz que "em fotografia a menor coisa pode ser um grande assunto". E eu passei a procurar naquele grupo de imagens, por pequenas coisas.

Há coisas básicas que se precisa saber para se elaborar um bom ensaio:


A primeira delas é a escolha do tema ou assunto - que por si só já traduz a intenção do fotógrafo, anuncia a mensagem. Criei um ensaio que intitulei "Na Linha", pois passei alguns meses sobre os trilhos, capturando as tais "pequenas coisas" até me dar conta de que estava em uma "viagem" dentro d'outra.

Assim como meu tema foi objetivo, um ensaio permite trabalhar com a subjetividade. Como Michaels disse "prefiro fotografar os sonhos dele". Ora, você deve estar se perguntando: "que tipo de câmera uso para fotografar sonhos?". Quer saber? A sua imaginação é a melhor câmera! Um dos mais deliciosos "sonhos" que já vi fotografado, é o "Self Portre among friends" de meu querido Sérgio Duarte.

A abordagem, ou seja, a maneira como o tema será tratado é muitíssimo importante! Se o tema já aguça a curiosidade (e também demonstra a curiosidade do autor), a sua abordagem vai revelar suas sutilezas (e ousadias). Fred Othero abusou da sensualidade masculina no ensaio Intercourse, por exemplo. Confesso que é divina uma abordagem tão insinuante e ao mesmo tempo cheia de plasticidade e classe.

O mais interessante na maneira de abordar o tema é que ela se estende à técnica utilizada, uso (ou acentuação) de cores, formas, filtros, distorções, enfim, à manipulação dos pixels que a era digital permite. Ou, pelo contrário, algo minimalista pode ser o máximo!

Há maneiras e maneiras de "aditivar" o ensaio: através do próprio processo de edição com sons, movimento, pela ordem que impusermos às imagens, enfim, aqui o processo de criação tem o céu como limite. O resultado final deverá um conteúdo rico e cheio de plasticidade (ou o que se condiciona chamar de "unidade visual") - que dá ao ensaio aquela sensação harmoniosa.

No mais, se quiser construir um bom ensaio, não se preocupe com o fator tempo. Há ensaios que levam dias, meses, anos. Lembro-me de um ensaio no qual uma câmera parada foi colocada no mesmo lugar a cada vidara de estação no período de um ano. Era possível sentir no tom do céu e na ação da atmosfera sobre a grande árvore que protagonizava a cena o "caminhão" de mudanças que havia passado por ali!

Treinar, treinar o olho para se tornar um caçador impiedoso de detalhes e a mente ávida por construções e desconstruções, engendrar.

Ensaie o seu ensaio!

Tina Andrade